terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Lágrimas não são argumentos [parte I ]


Pensei enquanto dormia num triste fim de uma história de amor. Tratava-se de um casal que se curtia muito intensamente. Passavam as horas vagas e as não vagas juntos. Cozinhavam juntos, ele cortando a cebola enquanto ela espremia o alho. Faziam café um para o outro. Faziam cafuné um no outro. Entreolhavam-se, nas cenas cotidianas e já deduziam o que o outro pensava. Possuíam a cumplicidade dos irmãos, o amor flamejante dos amantes clandestinos e acima de tudo eram amigos. Bons amigos do tipo que dão risada por qualquer bobagem.
Até o dia em que ela entrou no ap. dele sem tocar a campainha. Possuía uma cópia da chave, tamanha a confiança que existia. Foi entrando de mansinho para não assustar, com aquela doçura que lhe cabia quando queria somente fazê-lo sorrir. Escancarou a porta do quarto entreaberto e, de pronto, não entendeu a cena que via. Cerrou os olhos como quem se esforça para enxergar melhor, até cair num abismo de profunda incompreensão. Fechou a porta e saiu do ap. na mesma pisada, como quem se esforça para não ser vista. Como quem descobre o final de uma novela de maneira clandestina, totalmente proibida. Sentiu-se culpada pela “invasão” de domicílio. Desceu as escadas correndo e não conseguia fazer o raciocínio funcionar, pois na mente só lhe vinha uma imagem: dois corpos colados e olhares surpresos.
No caminho de casa sentou para descansar. Pediu uma água de coco e na medida em que sugava o líquido pelo canudinho, agonizava por dentro enquanto lágrimas de sódio escorriam pelos seus olhos perplexos.

(...) continua.

 

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